
Ócio ó si o faço
o que há de fazer
na maré certa
& na
hora cheia
iluminada
fácil faço
RABISCOS QUE VALEM COMO PENDURA NAS BIROSCAS DO ESTÁCIO ATÉ BRÁS DE PINA, PASSANDO, CLARO, POR VILA ISABEL.


Não se cria um artista.
O artista é escolhido
E só então nasce.
Não se trata de um personagem,
Uma logomarca ou uma mentira.
O artista sabe o que não é
Um artista não é um filho,
Um projeto ou uma imagem.
Um artista não se cria - fato.
Contudo, em vacilantes momentos,
Ela não cria, a artista.
Talvez porque ainda lhe faltasse autoconfiança,
Ou porque houvesse uma pedra
No meio de cada caminho dela
Ou, simplesmente, porque sempre foi muitas
E nesses muitas lhe cabe um mundo de possibilidades.
Pode ser alemã, inglesa e até espanhola.
Silêncio! Silêncio! Também pode ser...
Pode ter medo do escuro e de dormir sozinha inclusive.
Por que não?
A artista quase tudo pode,
Tudo sente e tudo é.
Freira, prostituta, Tereza...
Quem pode compreender
As engrenagens que movem a artista?
Colorida como rastros de confete
Sobre o chão da rua do mercado;
Divertida entre as frutas e os legumes
Dos corredores da feira da Glória;
Melancólica pelas esquinas
De bares da Maracanã;
Generosa por entre os becos do perdão...
A artista sabe bem o que não quer.
E dentre muitos não quereres
O não querer ser rotulada.
Irônica, verdadeira;
Desprendida, nostálgica;
Antes assim, agora assado...
Quiçá a artista dissesse:
- Não enche o saco!
E acendesse mais um cigarro.
Talvez risse, talvez chorasse,
Talvez decorasse e não encenasse,
Escrevesse e não publicasse.
Quem sabe?
Daquilo que se sabe
Está que a artista gosta de ter histórias para contar
Que a artista nasceu para ser o que é,
As muitas que já foi
E as que ainda será.

Nina Rosa, la cantanteESTE É UM TEXTO NÃO CEDIDO NEM PELO AUTOR, NEM PELO ÓRGÃO QUE O PUBLICOU. EM TEMPOS DE VASTA PUTARIA POR AÍ, NÃO É NADA DEMAIS PEGAR NO ORGÃO DOS OUTROS... QUALQUER COISA A GENTE FINGE QUE FOI DOAÇÃO.
F. (de Felipe)
* * *
O rebolar é novo modo de gingar e nova estação...
Fernando Assumpção*
Sábado à tarde, para mim, é o momento mais formoso da semana. E tem acontecido desde o inicio de ano, nessas horas lindas, um encontro de jovens Sambista no Bar Vaca Atolada, na ex-decadente e reformulada, Gomes Freire.
O bar simples tem atendimento atencioso – coisa rara nos dias de hoje: pode-se conversar longamente com o acessível dono e com os afáveis garçons. Apreciar o cardápio, tipicamente mineiro, como a generosa e saborosa e que leva o nome do estabelecimento: vaca atolada, tendo o seu melhor, o preço: por menos de dez reais. Porção de aipim com manteiga de garrafa, polenta frita, também nessa mesma linha, come bem e paga o justo.
O bar é tão bacana que sua Jukebox é feita só com sambas, dos clássicos ao que tem de moderno: da Velha Guarda da Portela, passando por Aniceto do Império, Noel Rosa e Diogo Nogueira. No salão, onde se apresenta os músicos, funciona um ar condicionado que não dá conta, mas que ameniza o calor. Não existe couvert artístico, existe um acréscimo de um real em cada na cerveja e refrigerante, mas de quem consumir. Honesto.
Alem disso tudo, o que vale mesmo o meu deslocamento e mudança de rota no meu dia preferido é a voz de Nina Rosa!
Nina Rosa uma jovem cantora, com uma voz média grave, suave, que se coloca em boas notas, que não perde nenhuma oportunidade e sustenta até o fim definidos tons em um bom samba. Nina é de uma geração moderno-contemporânea, mas, menina esperta que é, sabe que um figurino, um bom vestido estilizado, feito pelas “costureiras da família”, fazem a diferença em uma apresentação de música. Nina está sempre bem vestida, com um acessório no cabelo, uma bijuteria, maquiada ou qualquer coisa que valoriza a sua natural beleza. Hoje, onde as cantoras se apresentam como quem vai à feira ou com vestimentas compradas em lojas de roupas masculinas de rua: Nina surpreende.
Os também, jovens músicos, que acompanham Nina fazem bonito e valorizam a tarde com arranjos comprometidos e sérios. O repertorio circula entre os sambas antigos – mas sem aquela onda de resgate: “vamos tocar a terceira faixa do lado B do ‘As forças da natureza’” – Isso cansa. – e sambas mais “fáceis de cantar”, onde em uma roda as pessoas podem interagir, cantar e transferir-se para aquele momento mágico que se propõem. Buchecha, marido de Nina, simpático de voz grave, excelente, quase um barítono, se coloca a disposição da amada, em duetos de casais sambistas: “Tem que Rebolar” (José Batista e Magno de Oliveira) de Clássico na voz de Dona Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro ou em “Faixa Amarela” (Zeca Pagodinho/Jessé Pai/luiz Carlos/Beto Gago) do divertido Zeca Pagodinho.
A tarde e início de noite acabam e uma sensação de alívio ao peito apertado, de mais um sábado sereno, efetiva-se. Volto pra casa pensando no próximo, que será um sábado de outono: a mais linda estação, onde as noites são limpas e de longe se avista a Lua, e os dias plácidos e amenos.
Serviço: Roda de Samba no Botequim Vaca Atolada, das 15h às 19h
Av. Gomes Freire, 533 - Lapa (Rio de Janeiro)
* Fernando Assumpção está se guardando pra quando o outono chegar e tem esperança em uma nova leva de cantoras.
NOTA: no próximo número, “Gracioso, croquete de milho e galera da Cedae”

Por vezes a gente conta estar vivendo tempo de certezas e por isso mesmo, fica este tempo com uma cara de tédio, de coisa estabelecida, de reconhecimento de quem somos apenas com um adentrar ao boteco-meca alcunhado Arco Íris.
Como é tempo de Momo, não peço desculpas sobre nada mais. Que seja título lugar-comum do Buarque. Que seja o tempo de fingir não sentir a dura realidade das coisas ao redor. Nada agora importa além do fictício, do desvario, dos delírios & delícias assumpçãonianos, importam agora menos ainda os semáforos e os títulos da previdência, mas garantimos entrada no bloco para a galeria dos melancólicos, esses que são alma do carnaval.


