segunda-feira, 3 de maio de 2010

As Engrenagens



Não se cria um artista.

O artista é escolhido

E só então nasce.


Não se trata de um personagem,

Uma logomarca ou uma mentira.

O artista sabe o que não é


Um artista não é um filho,

Um projeto ou uma imagem.

Um artista não se cria - fato.


Contudo, em vacilantes momentos,

Ela não cria, a artista.


Talvez porque ainda lhe faltasse autoconfiança,

Ou porque houvesse uma pedra

No meio de cada caminho dela

Ou, simplesmente, porque sempre foi muitas

E nesses muitas lhe cabe um mundo de possibilidades.


Pode ser alemã, inglesa e até espanhola.

Silêncio! Silêncio! Também pode ser...

Pode ter medo do escuro e de dormir sozinha inclusive.

Por que não?


A artista quase tudo pode,

Tudo sente e tudo é.

Freira, prostituta, Tereza...

Quem pode compreender

As engrenagens que movem a artista?


Colorida como rastros de confete

Sobre o chão da rua do mercado;

Divertida entre as frutas e os legumes

Dos corredores da feira da Glória;

Melancólica pelas esquinas

De bares da Maracanã;

Generosa por entre os becos do perdão...


A artista sabe bem o que não quer.


E dentre muitos não quereres

O não querer ser rotulada.

Irônica, verdadeira;

Desprendida, nostálgica;

Antes assim, agora assado...

Quiçá a artista dissesse:

- Não enche o saco!

E acendesse mais um cigarro.


Talvez risse, talvez chorasse,

Talvez decorasse e não encenasse,

Escrevesse e não publicasse.

Quem sabe?


Daquilo que se sabe

Está que a artista gosta de ter histórias para contar

Que a artista nasceu para ser o que é,

As muitas que já foi

E as que ainda será.







Um comentário:

  1. Lindo, Rê...
    Eu já estava impelido a ir para a peça. Agora, embalado pelos versos e as verossimilhanças, estou intimado pela sede de beleza.

    beijos, meninas!

    as meninas...

    f.

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